Bob Wolfenson – Antifachada

Antifachada – Encadernação Dourada

Após quase dez anos longe do circuito de exibição das artes visuais, o fotógrafo Bob Wolfenson nos surpreende com dois ensaios – Antifachada e Encadernação dourada –, que, apresentados juntos, despertam a reflexão sobre nosso relacionamento com a cidade e inspiram uma nostálgica revisão, com certo distanciamento, dos nossos álbuns de fotografias esquecidos nos cantos da memória. Com esses trabalhos, BW demonstra ter a capacidade e o dever do artista, capaz de nos instigar, apresentando, com uma nova perspectiva, um olhar sobre São Paulo e sobre nossa vida, com evidências que nos provocam sentimentos tão desconfortáveis diante daquilo que é óbvio: a exposição de um retrato da nossa complexa interioridade, onde a identificação entre lembrança e emoção estética é evocada para recuperar uma experiência vivida.

Essa demonstração explícita de imprimir ao mundo uma misteriosa ordem interior, presente nas fotografias aqui selecionadas, denota que, apesar do caos resultante da falta de planejamento do espaço urbano e da irresistível improbabilidade de controle do cotidiano da vida, BW encontra verdadeiros extratos de pureza e harmonia no registro das formas, como se estivesse buscando (re)ordenar seus desejos, equilibrar seus sentidos e (re)encontrar sua história. Suas imagens irrompem da memória como se fossem flashes distantes da febre contemporânea do tempo real, para imporem-se como fragmentos visuais que se materializam como um inquieto manifesto da difícil existência humana.

O que é possível flagrar, nestes ensaios tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão umbilicalmente conectados, é a presença de um território de confronto. De revelações, estranhamentos e confissões. O fotógrafo escolhe caminhar por um fio de navalha que nos desafia e nos comove. Tudo simultaneamente, buscando, nesse dentro e fora, a memória confinada de um tempo remoto. Campos de silêncio que permite ao observador se envolver em cada imagem como se fosse uma verdadeira aventura que implica, como no cinema, uma incrível duração experimental.

Antifachada e Encadernação dourada são experiências estéticas autorais, em que o espaço absoluto, relacionado num tempo idealizado, legitima a nostalgia que o homem tem dele mesmo. Nostalgia de sua história e de sua passagem no jardim das delícias efêmeras. A luz quase soturna que ilumina a cidade de São Paulo vai contrastar com as diferentes luzes dos snapshotsdo cotidiano; a geometria criativa que salta aos olhos, resultado da superposição dos diferentes estilos dos edifícios de São Paulo, se diferencia da composição imperfeita dos momentos de íntimas evidências luminosas. Enfim, BW acentua a dissonância entre o excessivamente técnico e a simplicidade de uma fotografia quase despretensiosa, criando uma possível estratégia que revela uma passagem tranquila, quase natural, da transição de um espaço público para um espaço de intimidade.

A monumentalidade e a repetição do espaço público em contraste com a privacidade; o distante e o próximo; o fora e o dentro; o grandioso e o pequeno; a exclusão e a inclusão; o anonimato e o imediatamente reconhecível. Esse confronto de ideias, essa justaposição de conceitos é a pedra de toque desses trabalhos, tão diferentes e tão semelhantes. São possibilidades já utilizadas por outros artistas, que, num determinado momento de sua trajetória, buscam as referências de uma memória esquecida e abandonada pelos atropelos e imposições diárias da vida. A cidade e a família como modelo e referência. Modelo pela proximidade, e referência como registro dos instantes captados para a eternidade. Imagens de um tempo feliz, que passa veloz, e cuja existência, na plenitude da imagem, de alguma forma a fotografia tenta assegurar.

Enfim, os ensaios evocam os lugares como indicadores do tempo que passa. Antifachada mostra que a paisagem urbana é inacessível para o andante, mecanizado e veloz, que não olha, não observa, não concretiza a experiência de relação com o espaço circundante e sua escala grandiosa. Encadernação dourada privilegia o relato visual intimista, apreendido na ambiguidade, na tentativa de organizar os movimentos sucessivos – o lazer, a liberdade, o deslocamento, os encontros, as lembranças – que denotam uma pluralidade sensível dos momentos prazerosos.

Na verdade, nestes trabalhos, BW percebe o espaço e trata-o visualmente como se estivesse numa posição de espectador diante do fantástico espetáculo da vida. Estabelece uma relação direta entre olhar a paisagem e registrar a cena, consciente de que essa atitude, de raridade momentânea, deixa entrever que a melancolia e a solidão são expressas como superação da individualidade. Aparentemente, não tem poesia nisso, mas, quando o espectador inicia o longo percurso da leitura visual na tentativa de compreender o conjunto das ideias, exibidas com singularidade e competência, é possível encontrar o lirismo neste entrelaçamento de percursos, que abrem caminhos para nos perdermos na loucura da imaginação.

via bobwolfenson.com.br

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